
Aos 40 anos, a actriz Paula Sousa já tem na bagagem a concretização de um grande sonho: ter erguido um teatro para todos, comunicativo, divertido, interveniente, transformador e não elitista
Paula Sousa é uma das fundadoras do Teatroesfera, uma companhia de teatro profissional fundada em Março de 1995 e sediada na freguesia de Monte Abraão. Este novo conceito de teatro, divertido e sem “actores-vedeta”, conseguiu remobilizar o público residente no concelho de Sintra que estava totalmente afastado dos espectáculos de teatro. O Grupo Teatroesfera, é uma companhia de teatro profissional, composta por actores profissionais. Como e porquê nasce um projecto como o vosso no concelho de Sintra? Todos nós fizemos os cursos em Lisboa, no Conservatório, e integrámos durante cerca de 10 anos companhias profissionais como a Barraca e o Teatro Aberto. Depois fomos convidados pela Veredas para dirigir a Companhia de Teatro da Veredas, na altura. E porquê? Porque desde os 5 anos que moro em Monte Abraão e conheço muito bem a periferia. A minha forma de estar no teatro não passava por ser vedeta ou famosa. O que eu sempre quis foi explorar o teatro e desafiar-me como actriz e nada melhor do que fazê-lo aqui no concelho de Sintra, numa periferia que estava tão adormecida e que não tinha companhias de teatro. Grande parte dos actores do Teatroesfera nasceram e cresceram no Teatro Nacional, na Barraca, no Novo Grupo e na Cornucópia. A experiência que já traziam facilitou a vossa instalação num concelho limítrofe de Lisboa? Penso que sim, até porque éramos um grupo de actores com uma certa experiência que podia garantir espectáculos de qualidade. Nós não somos aqueles que não conseguimos trabalhar em Lisboa. Viemos foi fazer o nosso teatro e penso que isso foi uma mais-valia para Sintra e também para nós, porque acabámos por ganhar o nosso espaço e fazer o que verdadeiramente queremos. Em relação à Formação, o grupo tem tido um trabalho permanente de criação de oficinas de expressão dramática, em escolas do 1º ciclo. A ideia é criar mais públicos para que o teatro possa fazer parte da vida social das pessoas? Sem dúvida! A prova é que os próprios alunos crescem e acabam por vir ao teatro acompanhados dos pais e amigos. E, também, por sermos um grupo agradável e boa-onda atraímos novos públicos mesmo fora do concelho de Sintra. Há muita gente de Lisboa que vem assistir às nossas peças. Contudo, as oficinas de expressão dramática também são importantes para o próprio desenvolvimento das crianças e elas adoram. Penso que faz parte de um crescimento mais completo. Considera que o público residente no concelho de Sintra está afastado dos espectáculos de teatro? Se por um lado temos vindo a conquistar novos públicos, por outro ainda existem pessoas que não sabem o que é o Teatroesfera e que moram mesmo aqui ao lado. E isso entristece-me... mas temos esperança de um dia os podermos vir a conquistar. Temos a esperança de a palavra “teatro” deixar de ser um fantasma. Acredito que Sintra está a acordar para o teatro. O Teatroesfera tem apresentado espectáculos com linhas estéticas inovadoras e modernas, sem deixarem de ser acessíveis. É este tipo de teatro que faz falta ao concelho? Acessível sem ser básico nem populista. Nós fazemos teatro para as pessoas que habitam aqui à volta e são pessoas completamente diferentes umas das outras e nós queremos chegar a todos. Se há público que apenas entende o primário, outros há que conseguem ler as entrelinhas. Por este motivo, por conseguirmos fazer teatro para todos, a reacção do público tem sido crescente. Em termos culturais, o que realmente faz falta em Sintra? Penso que o que realmente faz falta é as entidades, Câmara de Sintra incluída, terem mais confiança no nosso trabalho, apesar do apoio que nos é dado. Mas o que, de facto, faz falta é dar continuidade a projectos educativos para as crianças na área cultural. Por exemplo, estou muito magoada com o sector da Educação... em 2004 as coisas não correram nada bem. Nós fizemos um espectáculo para crianças – “Galináceos” – e nenhuma das escolas públicas do concelho veio ver, porque a Câmara de Sintra não fez a ponte. E isto deixa-nos muito tristes. Todos os anos as escolas vinham gratuitamente ver os nossos espectáculos infantis e este ano não houve nenhuma de Sintra. Vieram muitas escolas, mas todas de outros concelhos. Mas 2005 há-de ser diferente, concerteza.
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