Partindo dos Estudos de Base do POOC Sintra-Sado, complementados por observações adicionais, efectua-se caracterização sumária das áreas críticas existentes na área de intervenção e propostas de intervenção, a complementar nos planos de praia. Referem-se as situações de ocupação ou utilização sujeitas a riscos naturais, bem como os monumentos naturais classificados ou as zonas naturais de maior interesse localizadas na área do Plano. Incluem-se por último algumas notas sobre intervenções relativas à alimentação artificial de praias ou estruturas de defesa costeiras existentes.
I - Caracterização de áreas críticas: situações sujeitas a riscos naturais
1 - Praia de S. Julião
a) Apoio de praia situado na encosta que limita a praia a norte Neste local a arriba é periodicamente actuada pelo mar no sopé, tem altura da ordem da dezena de metros, tem declive acentuado, em alguns locais próximo da vertical e é cortada em calcários margosos e margas de idade cretácica (Aptiano inferior) que inclinam para oeste cerca de 4º a 6º. A arriba é limitada superiormente por vertente de evolução sub-aérea, com declive médio substancialmente menor (da ordem de 15º a 20º) e com a metade inferior, talhada em arenitos do cretácico ("Grés superiores de Almargem", Aptiano-Albiano) profusamente cortada por ravinas, o que indica elevada susceptibilidade à erosão pela escorrência superficial destas formações.
O apoio de praia, o parque de estacionamento adjacente e a estrada que liga ao conjunto de edificações da Ponta de S. Julião, encontram-se implantados sobre a crista da arriba, em localização de risco relacionada com a sua evolução a longo prazo.
Por outro lado, a estrada intersecta as ravinas bem desenvolvidas na encosta a montante, e está limitada, a NE, por cortes nas formações areníticas brandas que são presa fácil da erosão superficial. Trata-se também de situação de risco considerável, pela possibilidade da ocorrência de fluxos concentrados de águas pluviais quando ocorram precipitações muito intensas, cujo percurso é interrompido pelas construções referidas. É também possível a ocorrência de fluxos de terras a montante, também provocados por chuvadas muito intensas, cujos efeitos sobre o edificado poderão ser gravosos, bem assim como escorregamentos de terrenos dos taludes que limitam a estrada a Leste.
Estas duas circunstâncias aconselham a análise pormenorizada das condições de estabilidade da edificação, do parque de estacionamento e da estrada, no que respeita à possibilidade de ocorrência de movimentos de massa de vertente (desmoronamentos, escorregamentos) na arriba adjacente, e da encosta situada a NE, relativamente à possibilidade de ocorrência de fluxos de terras e de destruições ocasionadas por águas pluviais. Esta análise deverá ser realizado por meio de estudo geotécnico de pormenor, que deve dar resposta aos problemas mencionados.
b) Apoio de praia em zona de galgamento. Trata-se de estrutura localizada sobre aterro, cerca de 2 a 3m acima da cota da praia alta e também claramente acima do fundo do vale da ribeira do Falcão. A estrutura está situada muito próximo de encosta escarpada, cuja estabilidade é sujeita a dúvidas. Globalmente é uma estrutura situada em local de algum risco, decorrente de galgamento oceânico da praia em épocas de temporal e, eventualmente, resultante da proximidade da escarpa onde podem ocorrer quedas de blocos. Recomenda-se análise pormenorizada das condições geomorfológicas locais de forma a definir com maior precisão o grau de risco envolvido.
2 - Praia da Vigia (ponto de coordenadas UTM: 29S MD 633 082)
a) Parque de estacionamento
Está situado junto à crista da arriba com cerca de 50m de altura, cortada em alternâncias de calcários margosos e margas cretácicas (Albiano-Cenomaniano), que inclinam cerca de 2º para sul, com fracas características resistentes e muito susceptíveis à desintegração granular, à erosão superficial e à ocorrência de quedas de blocos e de escorregamentos planares. O sopé da arriba está coberto por depósitos de blocos e terras resultantes da evolução da escarpa e imediatamente a sul deste local, subsiste ainda encostado à arriba, depósito de materiais deslocados por escorregamento recente, sobre o qual está apoiado carreiro de pé posto que dá acesso difícil à praia.
Da presença de abundantes indícios de instabilidade da arriba deduz-se que o parque de estacionamento está localizado em zona de risco, que pode ser minimizado pelo recuo, para o interior, do limite oeste do parque, para uma distância mínima à crista da arriba correspondente a metade da altura da arriba no local.
b) Escadas de acesso à praia
Esta estrutura de madeira foi construída depois de Setembro de 1996, visto que não figura nas fotografias aéreas dessa data, sobre o caminho de pé posto referido no ponto anterior e sofreu degradação quase imediata no Inverno seguinte.
A grande instabilidade destas arribas leva a desaconselhar a tentativa de construção de estruturas de acesso rígidas. Em alternativa, pretendendo-se assegurar acesso à praia, sugere-se que antes de cada época balnear, seja realizada limpeza e regularização do caminho de pé posto (exemplo: escavação de degraus nas camadas mais brandas), complementadas com a instalação de "corrimão" de corda, apoiado em pequenos pilares rígidos. Estes elementos melhorarão a segurança do acesso à praia relativamente à situação do caminho de pé posto simples, sem contudo necessitar o considerável dispêndio económico associado à reconstrução de uma estrutura rígida como as escadas de madeira, que tem ainda o inconveniente de, dada a elevada instabilidade da arriba, terem período de vida útil excessivamente curto.
3 - Praia do Magoito
O esporão rochoso onde estão situados os parques de estacionamento, um apoio de praia e o acesso à praia, é essencialmente constituído por calcários e calcários margosos do cretácico (Albiano-Cenomaniano), que inclinam cerca de 4º para oeste. No bordo sul do promontório, ocupando paleovale escavado nos terrenos cretácicos ocorre espesso depósito de duna consolidada, que forma a quase totalidade da escarpa onde está situado o acesso pedonal à praia. As formações cretácicas referidas tem apreciável resistência à erosão. Porém, tal como é corrente na generalidade das arribas, a ocorrência de fenómenos de instabilidade é relativamente frequente, nomeadamente a queda de blocos.
As estruturas existentes junto à crista da arriba, o Forte de Magoito, um apoio de praia, dois parques de estacionamento e um segmento de estrada encontram-se em zona de risco associado à evolução secular das arribas.
Em consequência, e atendendo ao elevado interesse do local, propõe-se que o problema seja analizado em estudo geotécnico de pormenor, tendente à identificação das situações de instabilidade existentes e ao projecto de soluções de correcção adequadas.
Dado que a duna consolidada constitui local de elevado interesse científico e didáctico na área das geociências, e que a sua preservação é tarefa fundamental na zona, propõe-se que o estudo geotécnico a realizar seja articulado com um projecto de recuperação e valorização deste monumento natural. Para além destes aspectos, o estudo geotécnico deve necessariamente incluir:
· Caracterização do maciço, com particular incidência sobre o levantamento de pormenor e análise da compartimentação que o afecta (estratificação, famílias de fracturas, falhas, filões) e caracterização dos materiais (rocha e solo); · Levantamento e análise dos factores de instabilidade existentes; · Análise de estabilidade das zonas instáveis; · Definição de medidas de correcção de zonas instáveis, de eventual tratamento da arriba e de reposicionamento dos limites do lado do mar das estruturas actualmente existentes.
Relativamente à possibilidade de ocupação por construções, e de modo a precaver os fenómenos de instabilidade que possam, a longo prazo, afectar a crista da arriba e as zonas próximas, propõe-se a criação de: · Uma faixa de risco associada à evolução das arribas, com largura medida na horizontal e perpendicularmente ao seu bordo superior, igual à altura livre da arriba adjacente; · Uma faixa de protecção adicional, de largura igual à da faixa de risco e contada para o interior desta.
A faixa de risco corresponde à zona que presumivelmente pode ser directamente atingida por recuos da arriba, enquanto a faixa de protecção se destina a minimizar sobrecargas sobre o maciço que possam acelerar a instabilização da arriba e a assegurar que, quando ocorrer um recuo que afecte a faixa de risco, pelo menos uma nova faixa de risco possa ser definida, localizada mais para o interior.
Nas faixas de risco e de protecção deve ser interditada a construção. Em consequência as faixas de risco e protecção devem ser retiradas da área urbana prevista no local mas ainda não ocupada.
A decisão sobre o destino do apoio de praia localizado na parte superior da arriba, sobre a duna consolidada deve ser ponderado em articulação com o projecto de recuperação e valorização da duna como monumento natural.
4 - Praia da Aguda
Arriba com altura da ordem de 50m cortada em terrenos margosos e calcários do cretácico (Albiano-Cenomaniano), cobertos no topo por duna consolidada.
O parque de estacionamento, o apoio de praia e a estrada estão situados em plena faixa de risco associada à evolução das arribas. Apesar de as observações realizadas no local não indiciarem risco iminente, sugere-se a realização de estudo geotécnico de pormenor para avaliar a instabilidade da arriba no local e prever o reposicionamento destas estruturas mais para o interior, fora da faixa de risco.
5 - Azenhas do Mar
a) Núcleo urbano
O limite oeste desta típica localidade está situado sobre a crista da arriba, que tem altura máxima da ordem de 40m. A manutenção deste lugar de grande interesse paisagístico deve passar pela elaboração de um estudo geotécnico de pormenor, com caracter de urgência, do qual resulte projecto de intervenção com a finalidade de assegurar a estabilidade da arriba e das construções adjacentes.
b) Miradouro
Neste local sugere-se a realização de estudo geotécnico de pormenor com a finalidade de delimitar as zonas e/ou blocos instáveis. Sugere-se que a solução de tratamento a adoptar se baseie na remoção de estruturas e restos de muros e pavimentos do miradouro, situados sobre blocos em risco, e reposicionamento dos limites do miradouro em zonas estáveis, não ameaçadas por risco eminente de derrocada.
6 - Praia das Maçãs
Existem várias construções e um troço de estrada em faixa de risco associada à evolução secular das arribas. De acordo com as condições geomorfológicas locais recomenda-se que este troço litoral seja mantido em observação, de forma a despistar a possibilidade de ocorrência de desmoronamentos eminentes, e que seja realizado um estudo geotécnico de pormenor para estabelecer as medidas de correcção/estabilização necessárias para assegurar a estabilidade e segurança de utilização da via de comunicação e do edificado.
As áreas abrangidas pela faixa de risco associada à evolução das arribas, com largura igual à das arribas adjacentes e onde não existirem construções, devem ser interditadas à construção e removidas do espaço urbano ou urbanizável.
7- Praia Pequena do Rodízio
Em todo o contorno da praia as arribas são constituídas por calcários e calcários margosos, alternando com margas acinzentadas. As camadas inclinam suavemente para sul, cerca de 2º.
Junto ao bordo superior da arriba existe caminho de terra largo, situado claramente na faixa de risco associada à evolução das arribas. Neste caso sugere-se que o trânsito de veículos seja limitado ao seu bordo mais interior, e que toda a zona seja mantida em observação com a finalidade de detectar indícios de desmoronamentos iminentes.
Existem algumas casas também situadas em faixa de risco, pelo que se recomenda que sejam também mantidas em observação.
O acesso à praia e um apoio de praia, localizados na face da arriba encontram-se em situação de risco iminente. A manutenção do apoio de praia actual deve estar condicionada à realização de trabalhos de consolidação da arriba a montante e a juzante.
Relativamente ao acesso automóvel, que é periodicamente afectado por escorregamentos de terreno, e tendo em atenção as fracas características geotécnicas dos terrenos, deve ser reposicionado de acordo com estudo geotécnico que defina a sua localização menos susceptível de sofrer destruição por fenómenos de instabilidade das arribas e de aterros que seja necessário construir. Considerando ainda as fracas características geotécnicas dos terrenos, sugere-se que o acesso seja provido de soluções de drenagem e escoamento superficial de águas pluviais, de forma a evitar infiltração excessiva no maciço e consequente instabilização. Sugere-se ainda que o acesso seja mantido sem pavimentação rígida, visto que esta seria rapidamente danificada e/ou destruída por assentamentos diferenciais e deslizamentos de terrenos.
8 - Praia Grande do Rodízio
Esta praia é limitada a norte por afloramentos rochosos compostos por calcários e calcários margosos, geralmente em camadas muito espessas, intercalados com margas acinzentadas, de idade cretácica (Cenomaniano), que inclinam suavemente para sul. Sobre estas camadas rochosas está apoiado o Hotel e a piscina, em posição sobranceira ao mar. A resistência dos materiais do substrato e a obra construída asseguram a estabilidade. A manutenção e serviçabilidade daquelas estruturas deve, naturalmente passar por inspecções periódicas, de forma a prevenir eventuais situações de ruína eminente que possam ocorrer.
Para sul do Hotel, e ao longo de cerca de 550m, a praia alta está limitada do lado de terra por paredão e enrocamento, sobre o qual existe acesso automóvel asfaltado, encostados ao sopé da antiga arriba. Os enrocamentos prolongam-se ainda cerca de 120m para sul, existindo do lado do mar dois apoios de praia.
Neste caso, e visto que a encosta deixou de ser actuada no sopé pelo mar, a sua evolução está apenas dependente dos agentes sub-aéreos (precipitação, escorrência superficial, percolação no maciço, alteração e descompressão superficial), que podem no entanto ser suficientes para desencadear a ocorrência de movimentos de massa de vertente, tanto mais que a encosta é, em grande parte composta por terrenos oligocénicos, com fracas características resistentes.
Apesar da encosta estar em grande parte coberta por vegetação, subsistem vestígios de escorregamentos de terras de dimensões consideráveis, que sugerem a possibilidade de reactivação futura ou a possibilidade de ocorrência de novos movimentos. Atendendo a estas observações, ao facto de existirem cortes frescos na vertente e à presença do acesso à praia e estacionamento, apoios de praia na base da vertente, e casas dispersas na parte superior da encosta, recomenda-se a realização de estudo geotécnico que abranja a totalidade da praia e da zona envolvente, para identificar de forma sistemática as situações de instabilidade e projectar as soluções de correcção/estabilização necessárias. Atendendo às condições geomorfológicas locais, ao substrato geológico e à ocupação relativamente pouco densa sugere-se que as medidas de estabilização a utilizar sejam essencialmente do tipo correctivo, tendencialmente mais económicas e com maiores probabilidades de bom comportamento a longo prazo do que estruturas de contenção rígidas.
Os apoios de praia existentes na parte sul da praia, estão situados na praia alta e eventualmente sujeitos à acção do mar em épocas de temporal. É porém de considerar que, numa utilização essencialmente estival, os riscos envolvidos para os utilizadores tendem a ser muito reduzidos.
No extremo sul da praia, em camadas do Cretácico inferior com atitude quase vertical, existem pegadas de dinossáurios. Dado o interesse deste tipo de ocorrências, recomenda-se a realização de estudo com a finalidade de preservar e valorizar este monumento geológico.
9 - Praia da Adraga
Existem um apoio de praia e um parque de estacionamento junto ao troço terminal da Ribeira da Maceira, na sua margem esquerda. O apoio de praia está encostado a encosta escarpada cortada em rochas calcárias de idade jurássica.
A localização das estruturas implica algum risco, por se encontrarem no leito de inundação da ribeira e pela possibilidade de ocorrência de fenómenos de instabilidade na encosta adjacente. Estes riscos não parecem porém particularmente gravosos, pelo que se recomenda que o local seja mantido em observação, de forma a detectar atempadamente situações de ruína ou risco iminente.
Cerca de 300m a SSE da praia, sobre a arriba, existe grande algar de abatimento nas rochas calcárias jurássicas. Dado o interesse geológico desta estrutura e os riscos que comporta para a circulação na sua vizinhança, recomenda-se que a abertura do algar seja vedada e seja provida de varanda que permita a sua observação segura. Estes dispositivos devem ser completados com painéis explicativos sobre a génese e desenvolvimento daquela estrutura geológica.
II - Caracterização de áreas críticas: monumentos naturais
- Duna consolidada da Praia do Magoito
(ver I. 3)
- Pegadas de dinossáurios da Praia Grande do Rodízio
(ver I. 8)
- Algar de abatimento a sul da Praia do Cavalo
(ver I. 9)
- Cabo da Roca
Trata-se de zona de grande interesse paisagístico, geomorfológico (observação da morfologia das arribas; depósitos de grandes desmoronamentos; praias de calhau) e geológico (rochas do maciço eruptivo de Sintra; depósitos de vertente; vestígios de praias levantadas), para além de constituir o ponto mais ocidental da Europa. A circulação pedestre junto à escarpa de grande altura é arriscada, sendo recomendável a instalação de percursos de passeio marcados, e de painéis explicativos sobre os variados motivos de interesse do local.
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