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PALÁCIO DA PENA E CONVENTO HIERONIMITA DE NOSSA SENHORA DA PENA

Localização

PALÁCIO DA PENA

Serra de Sintra, freguesia de São Pedro de Penaferrim

CONVENTO HIERONIMITA DE NOSSA SENHOA DA PENA

Serra de Sintra, freguesia de São Pedro de Penaferrim
 

PALÁCIO DA PENA

Fotografia de José Manuel

Memória descritiva

«Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Conheço a Itália, a Sicília, a Grécia e o Egipto, e nunca vi nada, nada, que valha a Pena. É a cousa mais bela que tenho visto. Este é o verdadeiro jardim de Klingsor – e, lá no alto, está o Castelo do Santo Graal.»

    Richard Strauss

O homem romântico, contemporâneo da Revolução Industrial, assistiu à transição gradual de uma civilização rural para um estilo de vida fundamentalmente urbano, o qual entrou em acelerada decadência devido à forte concentração populacional e à destruição do meio ambiental. Procurando fugir do ambiente asfixiante da vida urbana, era no reencontro com a Natureza que o homem romântico encontrava a sua alternativa de vida.

Parafraseando J. Almeida Flôr, facilmente compreendemos no que consiste, na sua essência, o Ideal Romântico, ideal este que se reflecte em todas as atitudes da Vivência Romântica: «O cenário romântico por excelência é o da Natureza em liberdade, sobretudo naquilo que ela tem de acidental, assimétrico, incompleto e imperfeito e naquilo que ela simboliza de vitória da espontaneidade sobre a reflexão, do caos criador sobre a ordem rígida do arrebatamento dionisíaco sobre o equilíbrio apolíneo.»

Sintra, enaltecida por vários autores e peregrinos estrangeiros (Byron, Beckford e Hans C. Andersen, entre outros), significava a possibilidade de concretizar esse sonho romântico. D. Fernando II assim o entendeu, criando uma verdadeira paisagem à dimensão da imaginação romântica, donde sobressai o recorte majestoso e sereno do Palácio da Pena, a coroar a Serra de Sintra.

O palácio e os jardins foram concebidos como um todo: as influências que conduziram à realização sublime de um,  encontram-se no outro. «O Mosteiro gótico da Pena despiu-se então da simplicidade monástica para trajar as galas do século; deixou a divisa dos filhos de S. Jeronymo para se ataviar com o brasão d’armas de Portugal e Goburgo; trocou os seus dormitórios e estreitas celas por espaçosas salas; e mudou o nome humilde de habitação de monges no título pomposo de Paço Real. Depois, o augusto restaurador do monumento manuelino acrescentou às antigas obras outras novas e muito mais esplêndidas. A par do velho edifício rejuvenescido, levantou-se, como por efeito de condão mágico, um soberbo e formosíssimo palácio, uma verdadeira mansão de fadas. E uma grande extensão de Serra, em volta do paço, adquirida em diversas ocasiões pelo real fundador, foi transformada em um magnífico parque, a cuja traça e plantação tem presidido o mais apurado gosto» (lnácio de Vilhena Barbosa,  Parorama Photoqraphico de Portugal, 1873).
A Pena apresenta, pois, uma atitude vanguardista e inovadora no modo como concilia e recupera os valores arquitectónicos nacionais de diferentes épocas.

Traçando um percurso pelo seu interior, várias são as dependências (26 no total) nuamente decoradas segundo o sabor e o colorido românticos, onde se contemplam quase todos os materiais e estilos decorativos conhecidos, que nos levam a reviver esse tempo passado. Sendo o Palácio Nacional da Pena o baluarte arquitectónico do Movimento Romântico em Portugal, ele reabilita em si inúmeras expressões de antigas civilizações, cristalizando em cada elemento da sua decoração formas mítico-mágicas, pormenores vegetalistas e animalistas. Depois de reerguido o que restou do antigo mosteiro hieronimita, com o seu claustro de dois pisos e com as paredes revestidas a azulejos, que datam desde o século XVI até ao século XIX, uma nova estrutura arquitectónica revivalista foi emergindo. Revivalista no sentido em que nela encontramos elementos característicos de variadas antigas civilizações: Egípcia (elementos animalistas e vegetalistas, assim como no remate das cimalhas e das colunas torsas, onde assenta o arco do balcão da grande varanda). Árabe (os minaretes, diversos arcos trilobados, elementos decorativos e escrita árabe que surgem dispersos). Podemos falar ainda em revivalismo na medida em que procurou igualmente, nas diversas épocas da história da civilização ocidental, matéria para a sua concepção; assim, o gosto pelo medievalismo está patente, quer no claustro e no fecho das suas abóbadas (que lembram os medalhões das antigas catedrais góticas), quer ainda no torreão (a “porta-férrea” da entrada), no passeio da ronda e nos diversos tipos de guaritas. O Renascimento surge reabilitado na utilização de vários e característicos elementos decorativos da época, tais como os bicos das guaritas da “porta-férrea”, os vários cunhais das bolas e a manutenção (e integração) do magnífico retábulo em alabastro e mármore da Capela (século XVI), a abundância de elementos mítico-mágicos, a janela “em negativo”, copiada da janela do Capítulo do Convento de Tomar, bem como todo o cordilhame do neo-manuelino.

É do “Terraço da Rainha” que melhor se pode observar e compreender a disposição deste novo espaço arquitectónico, constituído por uma série de terraços desnivelados, escadas em caracol, diversas guaritas, arcos, passadiços e corredores, que nos dão acesso às inúmeras dependências que se espalham, acidental e assimetricamente, segundo o ideal romântico.

Antes de penetrarmos e de percorrermos o interior do Palácio, deveremos salientar que estamos perante uma das raras casas reais portuguesas que ainda hoje mantém intacto todo o seu espólio, mobiliário e adereços originais.

A entrada para o Palácio faz-se por um pátio de pequenos arcos arabizantes, terminados num remate superior de vincado gosto egiptizante.

Passando-se a porta, ornamentada com almofadados pétreos, encontramos logo e de imediato, dois belos vasos de ferro fundido (típicos do século XIX e de nítida influência de Eiffel), representando graciosas cenas mitológicas gregas. Ao fundo, vêem-se dois lances de escadas que formam um U, destacando-se, entre elas e sobre uma base de madeira, o busto do Rei Artista. Por detrás da peanha, pende do corrimão o “Pavilhão Real” usado por D. Pedro V.

No topo das escadas, deparamos com o claustro quinhentista do Convento de Nossa Senhora da Pena, restaurado integralmente por D. Fernando II e tendo ao centro uma concha pétrea gigante. Desta, assente e sustentada por quatro tartarugas, emana um feto arbóreo, sugerindo-nos a interpretação romântica da vida vegetal a brotar do mundo marinho.

A copa, que antecede a casa de jantar da Família Real, é preenchida por um enorme armário de madeira recheado com porcelanas e cristais, donde se destacam as peças Limoges-Haviland recortadas e ostentando a Coroa Real portuguesa.
Daqui temos acesso à sala de jantar instalada no antigo refeitório dos monges hieronimitas. O seu mobiliário, todo ele em estilo nacional, foi propositadamente talhado para aquele espaço, sendo digna de nota a elegante mesa posta para doze pessoas e coberta por um magnífico arrendilhado de Bruxelas. O centro de mesa, representando uma caravela sustida por Ninfas e Neptunos, consiste numa bela peça de ourivesaria francesa oitocentista. atribuída a Froment Maurice e Louis Aucoc, que aqui constitui o elemento decorativo mais importante. A janela do fundo mostra cortinados de renda suíça e, à sua frente, sobre uma coluna, observa-se o lindo arranjo de plumagens em forma de leque. No chão, um soberbo tapete turco preenche grande parte do espaço ocupado pela mesa e cadeiras.

Num dos aposentos do Rei D. Carlos, decorado com elevado requinte, observam-se sete telas inacabadas da sua própria autoria, representando cenas amorosas, onde Ninfas e Faunos se envolvem em apaixonadas correrias. Uma bonita colecção de vidros e canecas pode ser observada ainda, sobre uma das pequenas mesas que preenchem todo este espaço. No compartimento subsequente (quarto de repouso de D. Carlos), vê-se um mobiliário Império com cama de dossel, onde a madeira e o bronze se interligam harmoniosamente. O conjunto faz-nos recordar um cenário de ópera. traduzindo a mentalidade oitocentista, repleta de sonhos e fantasias.

Por todo o edifício inscrevem-se numerosas casas-de-banho, onde o gosto pelo exótico e pelo orientalizante predomina. Da sua decoração fazem sempre parte elegantes divãs, otomanas, banheiras revestidas com madeiras acetinadas, torneiras em forma de pássaros e cisnes estilizados, destacando-se ainda os inúmeros frascos de perfumes orientais que preenchem por completo algumas prateleiras.

O primeiro e segundo quartos das damas apresentam um notável trabalho de estuques dos irmãos Meira, realçando-se, no primeiro, a representação de troncos de árvores com pinhas no tecto e a imitação de madeira nas paredes, dando à dependência um ar bastante sóbrio; o seu mobiliário é nacional com uma cama indo-portuguesa datável do século XVIII, construída em teca. Destaque-se ainda a romântica mesinha de repouso capitoné, profusamente ornamentada e de tampo recortado, O segundo aposento, pintado em tom de mostarda e igualmente atribuído aos estucadores de Afife, apresenta pequenas grinaldas de rosas junto à sanca, bem como todo o tecto decorado com motivos semelhantes. As cadeiras são oitocentistas. Um quadro, colocado em lugar de destaque, é atribuído a N. Alexomati, datando de 1888.

O belíssimo quarto da Rainha D. Amélia, anteriormente de D. Fernando II inclui um excepcional trabalho de estuque com motivos geométricos, dando-nos a impressão de nos encontrarmos numa sala islâmica. Os dois fechos de abóbadas representam aqui, respectivamente, as armas reais de D. Maria II e do Rei-Consorte; as de D. Carlos e de D. Amélia. A cama, de bilros e em pau-santo, data do século XVIII e apresenta dossel e cobertura. De referência, ainda, os castiçais de prata, a espevitadeira, os tapetes turcos, as loiças Companhia das Índias. as porcelanas francesas, os cristais da Boémia, os candeeiros Gagehaut e o fenomenal gomil Arte Nova. O toucador contíguo consiste numa pequenina sala forrada a pau-santo, onde se vêem ainda inúmeros “dessous” e “ternures”, capas, leques e outros adereços.

O quarto de vestir da Rainha encontra-se também completamente decorado ao gosto da época, vendo-se, para além do mobiliário de mogno, um bem torneado bengaleiro circular.

O mobiliário chinês com embutidos de madrepérola e o contador de laca da China, com decoração fitomórfica, constituem as peças mais representativas da saleta de costura. Observam-se aqui, no entanto, outras peças também interessantes, tais como os “Cães de Fó” de porcelana, as jarras lacadas, os marfins oitocentistas e a majestosa aguarela de Kymalugant.

Já na sala de estar privada da Família Real, o que mais nos prende a atenção é o conjunto de porcelanas Meissen, policromadas, bem como os estuques parietais geometrizantes, a cafeteira setecentista e a soberba escultura feminina de E. Barrias, de características algo próximas da Arte Nova. Refira-se ainda o contador do século XIX, os cadeirões arabizantes sugerindo minaretes, a fruteira de gradilha alta com duas pegas em Companhia das Índias, os inúmeros retratos de família, o piano de madeira de jacarandá e a Caridade de Columbano, o que fornece a esta sala uma sobrecarregada ambiência vincadamente romântica.

Outra das divisões que merecem ser especialmente referenciadas consiste no escritório de D. Maria Amélia de Orleans, de cuja decoração sobressaem as porcelanas Meissen, as esculturas de bronze, os pratos orientais, a imponente cadeira do século XIX e o magnífico óleo de Cristino.

A denominada “Sala Árabe” é, sem dúvida, uma das mais belas e majestosas dependências da Pena. Integralmente pintada a “trompe-l’oeil” por Paolo Pizzi, a sua arcaria árabe sugere novos planos e novas perspectivas ao aposento, dando-lhe uma dimensão quase irreal. Aqui abundam, por todo o espaço, as caxemiras, as almofadas, as cadeiras indianas e as consolas de ébano, a par dos pratos Companhia das Índias, das lamparinas de mesquita e do lustre francês atribuído a Meissen.

Da “Sala Verde”, são sobretudo dignas de registo as peças em que foram utilizadas as técnicas do “papier maché”, representando ramos de flores, “chinoiseries”, paisagens, etc... Depois de atravessarmos duas pequenas salas de passagem, chegamos a outro encantador espaço - a “Sala Indiana”. Aqui, deparamos com uma decoração requintada, levada ao seu máximo expoente. Temos cristais da Boémia, elegantemente misturados com um bonito mobiliário indiano rendilhado. Para além dos contadores de teca, esta sala apresenta ainda o formoso baixo-relevo de Vítor Bastos, representando a Cólera Morbos e, do outro lado da sala, um aparador e uma mesa em meia-lua, ambos de madeira indiana. Pende do tecto um lustre Arte Nova, multicolor. Esta dependência é rematada por uma enorme janela tripartida, em forma de “bay-window”, a qual corresponde, no exterior, à famosa “Janela do Tritão”.

O auge da perfeição, a nível do trabalho dos estuques, é no entanto atingido apenas no denominado “Salão Nobre”. Essencialmente composto por motivos geométricos de nítida influência árabe, que se articulam com motivos vegetalistas, a grande sala atinge um equilíbrio impressionante. Saliente-se o lustre neo-gótico de bronze dourado, as quatro grandes esculturas de turcos em madeira de “andiroba”, os quais sustentam candelabros, os bufetes oitocentistas, o aquário da Fábrica do Rato e a lindíssima floreira estilo Carlos X, que decoram todo o espaço. Refira-se, por último, os vitrais alemães do século XIX, de nítida simbologia maçónica, os quais fornecem ao conjunto um toque medievo.

As restantes salas e aposentos do Palácio da Pena (quartos de D. Manuel II, “Sala de Saxe”, “Sala dos Veados”, etc.), encontram-se decoradas com mobiliários exóticos e são caracterizadas por um gosto romântico, idêntico ao das salas já aqui descritas.

A estes espaços vêm juntar-se as inúmeras construções e recantos do Parque nichos, fontes, cascatas, chalets, pontes, pérgolas, capelas, etc., etc.), que transformam este conjunto num autêntico emblema paradigmático do Romantismo Europeu.

Memória histórica

O interesse pelo local onde hoje se ergue majestosamente o Palácio da Pena remonta à Época Medieval, altura em que, segundo a tradição, teria ocorrido uma aparição da Virgem. Este facto, teria levado à construção de uma ermidinha dedicada a Nossa Senhora da Pena, ficando a mesma sob a administração religiosa dos priores de Santa Maria de Sintra.
Em 1493, D. João II, acompanhado por sua mulher, D. Leonor, terá ali vindo em pagamento de promessa. Mais tarde, D. Manuel I dedicaria também a este santuário um carinho especial, que o levou, inclusivamente, a levantar ali um pequeno convento destinado à Ordem de São Jerónimo.

Com D. João III e D. Catarina, a casa religiosa da Pena conhece novas beneficiações, não deixando, no entanto, de ser sempre um pequeno espaço de meditação e contemplação, incapaz de albergar mais de 18 monges.

Com o terramoto de 1755, o mosteiro sofreu graves danos, julgando-se então a sua recuperação como algo quase impossível.

Reinando D. Maria II, veio esta a casar, em 1836, com o príncipe alemão D. Fernando de Saxe Cobourg-Gotha, o qual viria a revelar-se um homem detentor de uma sensibilidade invulgar e apurado gosto enfim, um verdadeiro romântico, no sentido mais lato do termo.

É assim, pois, que por volta dos meados do século passado, encontrando-se o Mosteiro quinhentista de Nossa Senhora da Pena, na Serra de Sintra, completamente votado ao abandono, o adquire D. Fernando II em hasta pública, após a extinção das ordens religiosas em Portugal.

Encarregado por D. Fernando da construção de uma quinta no local, o arquitecto português Possidónio da Silva muito pouco teve a ver com a lindíssima edificação que viria a materializar-se num dos picos mais altos da Serra. De facto, foi sobretudo o Barão de Eschwege quem comandou todas as obras desde o seu início, em 1844, até à morte do Rei-Artista, conseguindo erigir, no cimo daqueles cerros, o mais antigo palácio do Romantismo Europeu.

Do mosteiro hieronimita conservou-se apenas a uso o que foi possível: o claustro, a sala de jantar, a sacristia e a magnífica capela manuelino-renascentista da Senhora da Pena.

Os trabalhos foram supervisionados directamente pelo Rei-Consorte. Construção bastamente interrompida por espaços temporais largos, as obras do Palácio da Pena (e respectivo Parque) arrastaram-se, no total, por 47 anos.

Com a morte de D. Maria II em 1853, assume a regência D. Fernando, até à maioridade do príncipe D. Pedro, mais tarde Pedro V. É então que o Rei-Artista passa a refugiar-se, sempre que possível, na sua Quinta da Pena, preferindo Sintra a qualquer outro local português.

Em 1869, casa em segundas núpcias com uma elegante cantora lírica, que entretanto actuara no Teatro de São Carlos, em Lisboa. Elisa Hens mais tarde Condessa d’EdIa. depressa se apaixonou pelo Castelo da Pena, onde fixou residência vindo a herdar, em 1885 e por morte do Rei-Artista, não só o Palácio, como também todo o frondoso Parque envolvente e dirigindo ela própria, inclusivamente, alguns trabalhos de florestação.

Como a opinião pública se indignasse contra as cláusulas testamentárias de D. Fernando II, a Condessa d’EdIa opta por vender o Palácio e o Parque da Pena ao Estado Português, consumando-se a compra por Cana de Lei datada de 25 de Julho de 1889.

Os últimos habitantes de tão soberbo reduto foram D. Carlos e sua mulher D. Amélia, partindo dali esta última para o seu exílio, em 1910, após a implantação da República.

Actualmente o Palácio da Pena constitui um dos mais deslumbrantes estabelecimentos museológicos do País, encontrando-se tanto o imóvel, como o seu recheio, praticamente intactos.
 

CONVENTO HIERONIMITA DE NOSSA SENHORA DA PENA

Memória descritiva

Do mosteiro quinhentista, integrado no Palácio Nacional da Pena, restam apenas a pequena igreja e respectivos anexos, bem como o claustro e o refeitório.

A igreja é de planta em ângulo recto, ou cotovelo, e encontra-se inteiramente revestida de azulejos, verdes e brancos na nave, e policromos tanto na capela-mor como no coro, o qual se prolonga para o lado da Epístola. Esses ricos azulejos de tapete seiscentistas devem-se a Filipe II, que mandou reparar as paredes da capela em 1619. No corpo da igreja inscrevem-se dois altares, hoje vazios, mas que foram destinados às imagens de Nossa Senhora da Pena e de São Jerónimo.

Sob a abóbada mestra ergue-se, no altar-mor, um magnífico retábulo em alabastro e mármore negro da autoria de Nicolau de Chanterene, datado de 1532. Todo o retábulo é repartido por colunas e pilastras, encimado pela representação da Sagrada Família em coroamento, As restantes superfícies encerram, entre finas edículas, uma profusão de altos relevos e estatuetas representando episódios da História Sagrada.

Do coro passa-se à arcaria do claustro, curioso espécime gótico-manuelino, rude e forte, cujas paredes se encontram revestidas de azulejos mudéjares do século XVI. Este claustro conduz-nos, através de um portal mainelado, ao que teriam sido os restantes compartimentos do edifício quinhentista, entretanto desaparecidos e substituídos pela construção “romântica” de D. Fernando II.

Memória histórica

A origem do Convento de Nossa Senhora da Pena, implantado num dos cumes mais elevados da Serra de Sintra, perde-se na noite dos tempos. Consta que no local se registou uma aparição da Virgem, tendo-se aí edificado então uma pequenina ermida dedicada a Nossa Senhora da Pena, na qual, por ordem de D. João I, os priores da Igreja de Santa Maria de Sintra celebravam missa todos os sábados.

A devoção régia a este orago encontra-se bem documentada. Em 1493, veio D. João II a esta ermida, com D. Leonor, sua mulher, pagar um voto à Senhora da Pena; mas foi D. Manuel I quem lhe dedicou especial afeição. Por sua ordem, no ano de 1503, efectuaram-se terraplanagens e edificou-se, em acrescento da ermidinha, um convento de madeira destinado à ordem de São Jerónimo. No entanto, em 1511, vendo o monarca que a construção era perecível, optou antes por fazê-la de cantaria e abóbada transformando o convento numa casa religiosa sólida para 18 monges, que incluía capela, sacristia, claustro, dormitório, oficinas e campanário, segundo projecto do italiano João Potassi. D. João III e D. Catarina expressaram também a sua devoção à imagem de Nossa Senhora da Pena, mandando esculpir, no ano de 1532, um magnífico retábulo de jaspe e alabastro para o altar-mor da capela, em cumprimento de promessa pelo nascimento de seu filho, o príncipe D. Manuel.


In "Sintra Património da Humanidade"
 



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